Fotografia: "sempre achei que o corpo nu e cru fala e representa muito"


 Sob o véu da melancolia a fotógrafa Gabriela Machado apresenta toda sua intensidade gótica nos levando até seu universo de beleza e tons de cinza.











Eu vejo aqui no seu trabalho uma certa referência gótica... é um reflexo da sua personalidade?
Acho que um pouco sim, sempre fui muito sensível, gosto e aprecio a melancolia, o obscuro, que está bem presente na subcultura gótica né!?
É uma grande influência mas não o principal intuito…

Inclusive tem bastante nudez no seu trabalho.. mas as fotos soam mais intimista, melancólica do que erótica ou sensual... é uma preocupação sua nessa representação?

Sim!
Tive problemas com distúrbios alimentares, como a obesidade e um grande problema com o meu corpo durante a infância. Uso o meu trabalho pra falar muito sobre mim, minhas fragilidades principalmente, e essa foi uma das grandes fragilidades da minha vida, mesmo sendo muito nova.

E sempre achei que o corpo nu e cru fala e representa muito
Esse trabalho acaba sendo um ativismo na cena feminista... contra a imposições dos padrões. Você participa de algum movimento?
Confesso que não foi o intuito mas hoje vejo que influenciou muito pra mim. O meu trabalho sempre foi minha válvula de escape, então o fato de fotografar principalmente mulheres "fora dos padrões" me fez enxergar o que até então sempre haviam me cegado. Comecei a tratar cada pessoa com uma certa individualidade, ver beleza onde a maioria das pessoas não veem.

Tem se fortalecido essa cena de mulheres na fotografia... principalmente retratando outras mulheres. Já foi retratada por alguma mulher também?

Nunca fui. Sou uma pessoa muito reservada e intimista, admiro muito essa troca, já fui chamada para alguns trabalhos. 
Pretendo posar um dia sim, mas por enquanto só posei para autorretrato, por não me sentir totalmente confortável na frente das lentes, me sinto melhor atrás delas...rs
Porém, pretendo mudar o disco sim.
Se fosse fotografada preferiria uma mulher? Você acha que o olhar masculino ainda é muito machista nessa nudez?

Sim, infelizmente sim.
Muita gente ainda associa a nudez feminina como algo erótico e padronizado, o que é uma grande tristeza se tratando de que estamos em pleno século 21, as vezes tenho a sensação de que estamos regredindo.

Então ficaria mais a vontade com uma mulher te fotografando...

Acho que sim. Mulheres se entendem, se fortalecem umas com as outras, são grandes irmãs de pais diferentes. Há conexão, sabe?

Entendo.. e me diga outra coisa... você utiliza recursos de pós produção? Photoshop e tals.... ou é contra?

O Photoshop nada mais é do que o laboratório da atualidade, rsrs. 
É um dos maiores recursos já inventados, porém como todos os recursos, deve ser bem utilizado. Não se faz uma fotografia com Photoshop, fotografia é captura. Mas a pós produção é de extrema importância para aprimorar essa captura, por isso é sempre aconselhável saber manusear cada ferramenta, assim você usa em prol do trabalho, que é exatamente o que faço.
Resumindo Sou totalmente a favor se bem utilizado e não vivo sem essa ferramenta fantástica. Justamente porque aprendi a utilizar.. hahaha

E na preparação para a foto... além da iluminação e tudo mais... tem algum ritual? Algum alucinógeno, música, oração... rsrs.. algo do tipo?
Hahaha.. música! Música me inspira muito!

Além de boas conversas com o fotografado, gosto de descobrir as pessoas e o grande ritual é justamente esse, descobertas. Amo pessoas que se entregam e sentem-se confortáveis com a minha arte!

Conexão é a palavra. Gosto de me conectar com as pessoas!
E a pessoa pra relaxar... fuma um? Toma uma breja? Já rolou do fotografado querer chapar pra ficar mais a vontade? Hahaha

Nunca aconteceu, mas gosto que as pessoas sejam elas mesmas quando as fotografo. Caso alguém tenha que fumar um para se conectar ao máximo com ela mesmo, não vejo problemas nisso, o importante é se entregar a si mesmo.. ahhaha

Só da minha parte que não rola, levo com muita seriedade o trabalho e nunca faria algo "chapada", nunca tentei mas acho que ficaria incapaz de criar com algo que distorça a minha realidade. A minha maneira de conexão é pura, nunca senti necessidade de "impulsos" no momento de criação sabe?

Sei.. e já que sua principal conexão é através da música. Qual tipo de música te inspira mais?

Olha, é um problema responder isso kkk
Melodia é arte e me inspira demais, tem que tocar na alma, rs. Eu encontro muito isso no rock gótico, acho que é a vertente musical que mais me chama atenção.

A música te ajudou a se conectar com a fotografia? Quando você se viu como artista?
Profissionalmente eu comecei aos 16 anos, mas já fotografava desde os 11 mais ou menos. Sempre tive contato com a fotografia, pois o sonho do meu pai era ser fotografo mas não teve recursos financeiros para tal. Desde muito cedo fui presenteada com câmeras, mesmo sendo muito nova (sou de 96, 20 anos) ainda tive o privilégio de ter o primeiro contato através das analógicas. Então é uma coisa que sempre esteve presente na minha vida.
“Com 16 decidi levar isso a sério e me matriculei na Escola Panamericana de Artes, a partir daí que comecei a me encontrar na fotografia. Foi até surpreendente, inicialmente eu entrei pensando apenas no mercado de trabalho, e logo me descobri como artista. "

E as pessoas que você fotografa são modelos profissionais ou pessoas que você convida? Como rola essa seleção?

São pessoas que convido. Amigos, família, conhecidos e desconhecidos... rs
As pessoas são uma caixinha de surpresas, onde elas mesmas se surpreendem, e a minha fotografia tem a descoberta como principal objetivo. É muito encantador e gratificante pessoas que se emocionam depois de posarem, algumas já choraram. Falta isso em muita gente, conhecer a si mesmo. E acho que já ajudei um pouquinho algumas pessoas alcançarem o interior.

Que legal.. isso dá um grande tema pra exposição. Você costuma expor essas fotos?

Sobre expor na verdade eu tenho uma grande dificuldade com isso.

Por falta de espaços.. apoios.. ou por você mesma?

Sempre fiz fotografia pra mim, expor sempre me deu um certo medo. É me colocar diante os olhos do mundo, isso soava muito assustador. Porém quando percebi que incentivei muita gente a se encontrar na arte e a descobrir essa preciosidade, fui tirando o medo aos poucos. Porém ainda é algo que me incomoda. Acho q devido a isso eu não vou muito atrás de apoio.
Eu vi que você fez um trampo pra Vogue... como foi essa parada aí?

A Vogue Itália disponibiliza um "concurso" online para o mundo inteiro, onde semanalmente são selecionados milhões de trabalhos de vários países e de todos os tipos, que, se aprovados ficam disponíveis no Photovogue It, fazendo parte dele.

E em 2015 eu decidi participar e para a minha surpresa o meu trabalho foi selecionado. É muito gratificante por ser uma grande referência e ter o trabalho visto por grandes curadores é algo muito bom.
Da hora mesmo. Mas aí, você busca fortalecer essa linha ou está com algumas ideias e projetos novos?

Projetos sim, inclusive muitos. Estou um pouco parada na fotografia, me tratando de uma grande depressão. Faz mais de um ano que não fotografo, fiquei péssima, tão péssima, a pontos de não conseguir fotografar. Considerando que era minha grande válvula de escape. Já pode imaginar o quão ruim fiquei né?

Estou melhorando e consequentemente voltando aos poucos. Por um momento achei que não conseguiria mais voltar, mas não desistirei da minha grande arma contra a depressão. A fotografia é a coisa que eu mais amo na vida, sem mais, nem menos. É a coisa que mais amo na vida!

Cara que louco... justamente você que ama a fotografia e faz fotos para as pessoas se encontrarem... pela conexão do indivíduo, o auto conhecimento..

Sim, pode imaginar o quanto foi forte? 

Soa quase como uma ironia… Mas aí, se precisar os “modelos” da Código Nóize também topam ser fotografados.. rsrs
Opaa!! Vamos fotografar!!! Hahaha ctz!!
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@gabrielamachadophotography

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