Risca Faca na garoa não sai faísca

Por Antônio Pellegrino

Eu sentia a sola do meu sapato diminuir com a umidade que aumentava em meus pés. Já com a meia encharcada me recuperei da ressaca e percebi onde realmente estava. A avenida escura e deserta fazia nossa caminhada parecer cada vez mais longa rumo ao destino... uma casa de shows de forró e sertanejo numa quebrada em Taboão da Serra, cidade vizinha a capital paulista. Falo nosso porque estava com um fotógrafo que acabara de conhecer e que tinha um certo andar meio #nãotoafimdeestaraqui até que, quando viramos a esquina e vimos aquele caminhão de super banda do nordeste,  daqueles forró pesado mesmo, com letreiro “Galego do Ceará”... é hoje!

Não era nem 14h de um domingo chuvoso quando os editores da Código Nóize me acordaram para eu entregar a porra da reportagem encomendada, uma temática com músicos populares, ou algo do tipo, nem dei muita atenção, eles não tinham nem uma merda de credencial, eu tinha que chegar no local e ainda dar uma carteirada de jornalista, “trampo em dobro”!

Havia uma garoa frequente e um vento que os relógios da rua marcavam 11º, a pé pelas avenidas em busca de um forró ao vivo, nem que fosse somente com um teclado. Logo de cara peço uma dose de conhaque. Uma caixa de música, daquelas que você coloca uma moeda, tocava um forró divertido, mas incompreensível. Com apenas umas três pessoas dançando, duas fumando na calçada e os próprios funcionários, o local mais agitado do bar era no banheiro, na fila da farofa.

Outro bar tinha um teclado ao vivo com um músico solitário cantando músicas animadas para cadeiras, mesas e copos às moscas. Era um espaço grande só que pouco convidativo, a frente toda era apenas grades com seguranças de terno. Como da rua mesmo dava pra ver essa recepção calorosa... preferi ficar do lado de fora, ainda que meus pés encharcados cada vez mais sentia as irregularidades do chão, muito comum em bairros da periferia de São Paulo. 

Quando cheguei no local marcado para encontrar com o fotógrafo já o cumprimentei com “Oi, vamos achar um bar”. Em poucas garrafas de cerveja de ‘litrão’, que logicamente não seria minha escolha se não fosse a única opção daquele buteco, percebi como a quebrada de São Paulo consegue ter um ar interiorano e ao mesmo tempo uma diversidade humana incrível a dar a pau em qualquer capital do mundo. Naquele ambiente em que estávamos eram casais sentados na mesa, velhos no balcão, travestis, crianças, roupas de oncinha, decotes, mendigos...

O nosso destino era o Risca Faca, estávamos em uma boa dose de loucura para conseguir facilmente as credenciais. Quando aquele letreiro no caminhão surgiu “Galego do Ceará” já fomos por ali para entrar com a produção. Me esforçava ao máximo para endireitar minha coluna fazer uma pose mais séria e ao mesmo tempo louco para entrar logo e pegar uma cerveja, uma cachaça ou que fosse para me manter na noite. A poucos metros da entrada as luzes começam a apagar, eles já estavam de saída, o show tinha acabado a tarde. Fui alucinado para um posto ao lado peguei uma long neck e olhei para o fotógrafo e não deu outra, “os filhas da puta da Código Nóize nos mandaram pra um caralho de matinê!”.

Saímos de bar em bar caminhando entre a divisa de Taboão da Serra e São Paulo, tudo muito frio, parecia um clima apocalíptico, o dia perfeito para a pauta dessa diversão alternativa dos forrós de quebrada. Nessa busca de uma animação forrozística, era exatamente nessa ordem, beber, molhar o pé, beber, molhar o pé. A garoa não parava e quando a roupa começou a ficar pesada lancei a ideia para o fotógrafo, que nessas alturas já topava qualquer parada.

“Vamos fumar uma diamba, voltar pra aquele bar dos ‘litrão’ e brisar de como seria um Risca Faca na quebrada.” 



Share on Google Plus